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20/02/13

Tributo a Debbie Ford - Continuar a descobrir a Sombra

Soube hoje que partiu a fantástica Debbie Ford.
Esta senhora dedicou-se a descobrir e a ensinar a trabalhar a Sombra, o nosso lado reprimido.

Através do seu trabalho apaixonei-me pela minha Sombra e a apaixonar-me a Sombra dos outros. Para que estas partes de nós não sejam nossas inimigas, mas antes instrumentos de alcançarmos a nossa luz e a nossa maior grandeza.



Traduzirei grosseiramente as palavras da sua irmã Arielle no facebook.
A palavra que melhor descreve Debbie era ser uma "Buscadora".


Na sua adolescência e durante os seus 20 anos, buscava excitação, festas, aventura selvagem e claro compras.
Nos seus trinta, começou a buscar entendimento sobre a mente, o corpo, ligação espiritual para se curar da adicção.
A partir, dos quarenta, dedicou-se a ensinar e partilhar o seu próprio processo de cura, enquanto buscava novos e mais profundos caminhos para a completude.


A sua missão foi cumprida. Hoje muitas pessoas estão mais conscientes porque ela abriu um caminho nunca antes revelado.
O maior tributo que sinto poder fazer é continuar nesta descoberta da minha Sombra e da dos outros.

Deixo aqui um excerto do seu livro "Quando as pessoas boas fazem coisas más", que recomendo vivamente a todos.

Há estrelas que brilham mais no Céu. Debbie Ford é uma delas.


"O ponto fraco da psique humana, que muitas vezes é referido como o nosso lado sombrio, é a origem de todos os actos de auto-sabotagem. Nascido da vergonha, medo e negação desvia as nossas boas intenções e conduz-nos a actos impensáveis de autodestruição e não tão impensáveis de auto-sabotagem.

A vergonha e a negação alimentam o nosso lado sombrio por uma simples razão. Se aceitássemos as nossas fraquezas, imperfeições e defeitos como parte natural da nossa humanidade, teríamos a capacidade de pedir ajuda quando somos confrontados com um impulso com o qual não sabemos lidar. Aperceber-nos-íamos de que esses impulsos sombrios são uma parte natural da nossa humanidade que é necessário compreender e aceitar. Mas porque esses ímpetos não são explorados nem examinados, são envoltos em vergonha e negação e mantidos ocultos nas trevas. E é aí que o nosso self sombra, os apectos indesejados e negados de nós próprios, ganha mais poder até ser inevitável a explosão.

Todos os aspectos de nós próprios que negámos, todos os pensamentos e sentimentos que considerámos inaceitáveis e errados acabam por se dar a conhecer nas nossas vidas. Quando estamos a atarefados a construir um negócio, a criar uma familia ou a cuidar das pessoas que amamos, quando estamos demasiado ocupados para prestar atenção às nossas emoções, temos de esconder os nossos impulsos sombrios e qualidades revestidas de vergonha, o que nos coloca em risco de explosão exterior. Numa questão de minutos, quando menos esperamos, um aspecto rejeitado ou indesejado de nós próprios pode emergir e destruir as nossas vidas, as nossas reputações e todo o nosso trabalho esforçado.

Quantos mais actos flagrantes de auto-sabotagem temos de testemunhar até compreendermos os efeitos devastadores de negar e reprimir o nosso refugo emocional não processado?

(...) Pode ser uma coisa tão insignificante como arranjar uma discussão com o seu marido antes de sairem para um compromisso há muito adiado, ou criticar a sua filha à frente dos amigos depois de passar meses a edificar a sua confiança. Pode ser o adiamento da actualização do seu currículo e perder uma oportunidade fantástica, ou passar uma noite à frente do frigorífico depois de três meses de dieta. Talvez seja fazer um remoque para si próprio pensando que alguém já tinha desligado o telefone quando na realidade não tinha. (...) Na maior parte das vezes, a nossa dor não processada magoará muita gente. Muitas vidas serão prejudicadas, muitos corações ficarão destroçados e alguns espectadores serão apanhados pelos saplicos.

Comparemos as nossas emoções reprimidas e qualidades renegadas a lava humana. A lava existe sob a superfície da terra. Se não houver saídas de vapor à superfície da terra para aliviar a pressão da força poderosa que jaz sob ela, o único escape é sob a forma de erupção. De igual modo, os nossos desejos e impulsos sombrios acumulam-s ns nossas psiques e, a menos que encontremos maneiras seguras e saudáveis de as libertar, expressam-se de modos inadequados e potencialmente perigosos. Reconhecendo, aceitando e acolhendo o nosso lado sombrio criamos em nós respiradouros naturais. Facultando uma abertura, eliminamos a preocupação de uma explosão porque permitimos que a pressão seja liberta de uma maneira segura e apropriada. Mas, quando está esondida na sombra, reprimida pela vergonha e negada por medo, a sombra não tem alternativa senão explodir.

Devemos expor as duas forças contraditórias que existem dentro de cada um de nós: a força que nos obriga a expandir a nossa capacidade de dar e receber amort, a prestar atenção à nossa voz interior e a ser um membro contributivo da comunidade – e a força que nos controla, sabota os nossos melhores esforços e nos guia repetidamente numa direcção, que é inconsistente com os nossos objectivos mais grandiosos e valores mais profundos. É este o momento de abrirmos os olhos às razões pelas quais pessoas boas -  trabalhadoras, emprenhadas, bem-intencionadas, frequentadoras da igreja e contributivas – fazem coisas más; e olhar honestamente para o modo como nos tornamos no nosso pior inimigo.

Segundo uma citação atribuída ao grande psicólogo Carl Jung, há décadas, “Prefiro ser inteiro a ser bom”; por outras palavras, se tentarmos ser apenas “boas pessoas” separando-nos ou dissociando-nos dos impulsos mais sombrios que existem na estrutura do nosso ego, isolamo-nos precisamente  da essência da nossa humanidade. E, ao reprimir o nosso lado sombrio, só o convidamos a manifestar-se de formas doentias.

Nós, boas pessoas, fazemos coisas más quando fugimos aos nossos impulsos humanos básicos e negamos a dor, o descontenatemnto, o desgosto e impulsos conflituantes. Quando, pro vergonha, negamos que temos necessidades e fraquezas humanas, fechamos os olhos à nossa natureza essencial e ignoramos as necessidades dos nossos selves inferiores. Depois, isolados da parte mais pura de nós, da nossa origem, encontramo-nos vulneráveis a expressar pensamentos, comportamentos e impulsos que nunca pensámos serem possíveis.

A história de Jekyll e Hyde é um exemplo extremo, mas a verdade é que a maioria de nós serve dois donos. A consciência humana não é “uma peça única” mas sim múltipla, dinâmica e inconsistente, volátil e frágil. Ao esforçarmo-nos por manter a nossa consciencialização diária, prestando atenção ao que acontece à nossa volta e dentro de nós, o nosso primeiro dono incita-nos a maximizar essa consciência, a ser um “bom” ser humano que terá sucesso no empreendimento da vida. O nosso segundo dono, por outro lado, pede-nos para sermos outro tipo de recipiente: em vez de sermos um contentor para maior consciência, pede-nos para conter todos os conflitos, contradiçõesm ambiguidades, ironias, paradoxos e complexidades da vida humana, que podem entrar em erupção, muitas vezes não solicitada e apesar dos nossos desejos em contrário, corrompendo as nossas melhores intenções. É esta a condição precária da nossa experiência humana.

Estas duas forças opostas fazem parte da nossa configuração humana. Não há absolutamente nada que possamos fazer para eliminar qualquer uma delas, nem o quereríamos. Quando compreendermos amnas e as deixarmos actuar do modo como foram comcebidas, consderamo-nos eternamente gratos por possuirmos estas duas forças. Podemos esforçar-nos por reprimi-las, escondê-las, negá-las, ignorá-las e emudecê-las, mas estarão sempre lá, quer queiramos reconhecê-las ou não. Estarão sempre lá nos momentos de paz interior e nos momentos de conflito."

Ler também " A Luz da Nossa Sombra", aqui.

10/01/13

A Luz da nossa Sombra


"Há uma história Cherokee antiga sobre o chefe de uma grande aldeia. Um dia o chefe decide que chegou a altura de ensinar ao seu neto favorito os factos da vida. Leva-o para a floresta, fé-lo sentar sob uma velha árvore e explica:

‹‹Filho, há uma luta em curso dentro da mente e do coração de todo o ser humano que hoje está vivo. Apesar de eu ser um velho chefe sábio, o líder do nosso povo, essa mesma luta acontece dentro de mim. Se não souberes que a batalha está em curso, ela enlouquecer-te-á. Nunca saberás em que direcção ir. Na vida, umas vezes ganharás e depois, sem perceberes porquê, de repente sentir-te-ás perdido, confuso e receoso e podes perder tudo o que tanto te esforçaste por adquirir. Pensarás muitas vezes que estás a fazer o que esta certo para depois descobrires que estavas a fazer as escolhas erradas. Se não compreenderes as forças do bem e do mal, a vida individual e a vida colectiva, o verdadeiro self e o falso self, viverás sempre uma vida de grande agitação.

«É como se houvesse dois grandes lobos dentro de mim; um é branco e outro e negro. O branco é bom, generoso e não faz mal. Vive em harmonia com tudo o que o rodeia e não se ofende quando não há intenção de ofender. O lobo bom, estabilizado e forte na compreensão de quem é e do que é capaz, só luta quando é acertado faze-lo e quando tem de o fazer para se proteger a si ou à sua família e, mesmo assim, fá-lo da maneira correcta. Cuida de todos os outros lobos da sua alcateia e nunca se desvia da sua natureza.
«Mas também há um lobo negro que vive dentro de mim, e este lobo e muito diferente.  ruidoso, colérico, descontente, invejoso e tem medo. A mínima coisa provoca-lhe um acesso de raiva. Luta com toda a gente, o tempo todo, por razão nenhuma. Não consegue pensar claramente porque a sua ganância por mais e a sua raiva e ódio são imensos. Mas é uma raiva impotente, filho, pois a sua raiva não muda nada, Arranja sarilhos onde quer que vá, por isso encontra-os facilmente. Não confia em ninguém, portanto, não tem amigos verdadeiros»

O velho chefe senta-se em silêncio durante alguns minutos, deixando a história dos dois lobos penetrar na mente do seu jovem neto. Depois, inclina-se lentamente, olha o neto nos olhos e confessa: «Por vezes, É difícil viver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos lutam arduamente por dominar o meu espírito»
Atraído pelo relato daquela grande batalha interior do seu antepassado, o rapaz puxa pela tanga do avô e pergunta ansiosamente: «Qual dos lobos ganha, avô?›› E com um sorriso conhecedor e uma voz forte e firme, o chefe diz; «Ganham ambos, filho. Se eu optar por alimentar apenas o lobo branco, o lobo negro estara em todas as esquinas a espera de ver se estou em desequilíbrio ou demasiado ocupado para prestar atenção a uma das minhas responsabilidades e atacará o lobo branco, causando muitos problemas a mim e à nossa tribo. Estará sempre zangado e a lutar por obter a atenção porque anseia. Mas, se eu der alguma atenção ao lobo negro porque compreendo a sua natureza, se o reconhecer como força poderosa que é e lhe fizer sentir que o respeito pela sua personalidade e o utilizar para me ajudar, se nós, enquanto tribo, alguma vez nos encontrarmos numa situação difícil, ele ficará feliz, o lobo branco ficará feliz e ganham ambos. Todos nós ganhamos»


Esta história simples e pungente explica a difícil situação da experiência humana. Cada um de nós está empenhado numa luta contínua em que as forças da luz e da sombra se digladiam pela nossa atenção e obediência. Tanto a luz como a sombra residem dentro de nós ao mesmo tempo. A verdade seja dita, há uma alcateia inteira à solta dentro de nós - o lobo carinhoso,o lobo de bom coração, o lobo inteligente, o lobo sensível, o lobo forte, o lobo altruísta, o lobo sincero e o lobo criativo. Juntamente com estes aspectos positivos existe o lobo insatisfeito, o lobo ingrato, o lobo com direitos, o lobo maldoso, o lobo egoísta, o lobo vergonhoso, o lobo mentiroso e o lobo destrutivo. Todos os dias temos oportunidade de reconhecer todos estes lobos, todas estas partes de nós, e podemos escolher como nos relacionaremos com cada uma delas. Faremos o nosso juízo e fingiremos que algumas não existem ou assumiremos a propriedade da alcateia toda?


Por que será que sentimos a necessidade de negar a alcateia que vive dentro de nós? A resposta é fácil. Ou pensamos que eles não existem ou que não deviam existir. Tememos que, se admitirmos todos os selves diferentes que ocupam espaço na nossa psique, sejamos rotulados como esquisitos, diferentes, defeituosos ou psicologicamente fragmentados. Pensamos que devíamos ser boas pessoas ”normais” que são habitadas por uma só pessoa. Mas há muitos selves e a recusa de os aceitarmos é um erro grave - que nos levará a cometer actos estúpidos e imprudentes de auto-sabotagem.

Eis o grande segredo: o nosso self contém muitos selves porque dentro de cada um de nos existem todas as qualidades possíveis. Não há nada que possamos ver, nem nada que possamos julgar, que não sejamos. Somos todos a luz e a sombra, o santo e o pecador, o atraente e o desagradável. Somos todos bondosos e calorosos bem como frios e mesquinhos. Dentro de si e dentro de mim residem todas as qualidades conhecidas da humanidade. Embora possamos não ter consciência de todas as qualidades que possuimos, estão dormentes dentro de nós e podem revelar-se a qualquer momento, em qualquer lugar. Compreendê-lo permite-nos perceber a razão pela qual todos nós, «boas pessoas››, somos capazes de fazer coisas tão más e, mais importante, a razão por que por vezes somos os nossos piores inimigos."

in "Quando as pessoas boas fazem coisas más" de Debbie Ford.